sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

​Nós, católicos, não somos idólatras!

​Pela enésima vez, um pastor tenta confundir a audiência tentando demonstrar que nós, católicos, somos idólatras – a calúnia repetida incessantemente na esperança de que se torne verdade. Já expliquei, desenhei e expliquei o desenho. Agora, resta desenhar a explicação. Vamos lá! A questão essencialmente tem dois aspectos:
​Os protestantes não nos podem acusar de idólatras porque eles confessam, conosco, a fé na Santíssima Trindade, Deus Uno e Trino, sem confusão de pessoas na unidade da mesma substância;
​Portanto, o que está em discussão não são os atos internos, mas justamente os atos externos. Em outras palavras, o que nós, católicos, fazemos, pode ser considerado como ato religioso de idolatria?
​O Pastor confunde toda hora esses dois aspectos da questão, propositalmente (espero, pois, se não o fosse, seria uma confissão de incapacidade cognitiva), ao modo dos encantadores de serpente, com a finalidade de desorientar os ouvintes.
​Ele começa tentando enfrentar o argumento central, e diz que nós, católicos, afirmamos que a adoração acontece somente nos sacrifícios a Deus, e que, no Novo Testamento, esse sacrifício seria a Eucaristia. – Falácia do espantalho: nós não afirmamos que o sacrifício esgota a ideia de adoração, mas que o ato sacrifical é o ato supremo da adoração; o qual foi perdido pelos protestantes, que não são mais uma religião sacrifical, mas uma religião moderna, de pregação, louvores e cânticos, e daí advém a sua dificuldade de entender que nós não prestamos adoração aos santos quanto nós cantamos ou rezamos.
​Logo, partindo dessa falácia, ele afirma: "o objetivo desse vídeo é mostrar que não há biblicamente diferença entre latria [adoração] e dulia [veneração]". – Porém, como veremos, ele não apenas não o consegue, mas demonstra o contrário e, por fim, finge não tê-lo feito.
​Nas religiões antigas, dulia indicava um serviço devoto. Basta olhar para o candomblé, que é uma religião análoga às dos povos antigos do Crescente fértil: serve-se um orixá (divindade) inserido numa casa de candomblé (templo), guiado por pai ou mãe de santo (sacerdotes), cuidando do assentamento (altar), oferecendo as comidas e obrigações próprias daquele orixá (sacrifícios, comunhão e dieta religiosa), participando dos rituais de dança, canto e incorporação (liturgia e mística), e vivendo no dia a dia de acordo com as regras, tabus e valores que aquele orixá inspira (moral). Não é uma prática solta, é uma relação de fidelidade dentro de uma tradição.
​Servir a Mamon, hermeneuticamente, corresponde ao modo de viver, por exemplo, do homem contemporâneo, que serve a uma empresa (templo), guiado por um sacerdote (CEO), cuidando de um altar (trabalho), executando os serviços (sacrifícios), participando dos lucros (comunhão) e ideais da empresa (liturgia e mística), e vivendo de acordo com o seu ofício (moral). ISSO É UMA METÁFORA, não uma linguagem literal. E esta só é possível porque o campo semântico de dulia é mais amplo que o de latria (ou seja, toda latria inclui dulia, mas nem toda dulia está inclusa na latria).

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Imagens e ídolos, adoração e veneração

         Há uma distinção clara entre adoração devida só a Deus e veneração respeitosa dada a imagens. A Igreja se apoia em textos bíblicos que mostram Deus mandando confeccionar querubins ao lado da Arca da Aliança, a serpente de bronze e na encarnação do Verbo isso se evidencia ainda mais. A formulação dessa teologia se deu em muito no Concílio de Trento.

         As passagens de maior relevância estão no livro do Êxodo (especialmente o mandamento sobre ídolos e as ordens para o tabernáculo), exemplos do Antigo Testamento que mostram imagens ordenadas por Deus, isso porque muitos cristãos que interpretam de modo errôneo utilizam esse livro para se fundamentar. Nos textos do Novo Testamento encontra-se a fundamentação da dignidade da matéria pela Encarnação. Estudos modernos e as respostas conciliares retomam esses pontos para distinguir proibição de idolatria e da legitimidade pastoral e sacramental no uso das imagens. 

Êxodo 20,4–6 como o texto do mandamento que proíbe a adoração de ídolos, objeto de interpretação que delimita a proibição contra culto de falsos deuses e não contra toda imagem religiosa. A presença simultânea do mandamento contra ídolos e das instruções para fabricar as imagens sagradas no tabernáculo demonstra que a proibição é contra a adoração de imagens como deuses, não contra toda produção artística devota.

Êxodo 25,18–22 - Querubins sobre a arca, e Êxodo 25,40 - fazer conforme o modelo, usados para mostrar que Deus ordenou usar de representações no culto do tabernáculo. O comando de “fazer conforme o modelo” (Êxodo 25,40) é prova documental de que Deus autorizou formas visuais reveladas para o culto, legitimando representações litúrgicas quando claramente orientadas para Deus.

Êxodo 31,1–11 - Bezalel e Aoliabe dotados para as artes, justificam que a arte litúrgica e a fabricação de imagens são trabalhos sagrados e inspirados por Deus. A nomeação de Bezalel e Aoliabe como artífices inspirados (Êxodo 31) é indicação de que a habilidade artística tem um fim sagrado e comunitário, não meramente ornamental.

Exemplos de imagens ou entalhes no Templo e na mobília cultual, passagens de 1 Reis e 2 Crônicas, são citações frequentes em discussões históricas sobre imagens arquitetônicas e litúrgicas.

O episódio da serpente de bronze, Números 21,8–9, é o paradigma de objeto legitimamente exposto para cura e fé, distinto de ídolos adorados como deuses — usado em apologética clássica sobre imagens. Essa passagem também é prefiguração da crucificação de Jesus.

Textos do Novo Testamento sobre a Encarnação, como João 1,14, são fundamentais para afirmar que porque o Verbo se fez carne, representar Cristo em imagem é compatível com a fé cristã e ajuda a contemplação sacramental do mistério da encarnação (Natal).

          A leitura católica e a tradição patrística contextualizam o mandamento do Êxodo e mostram que o texto proíbe adoração de criaturas como deuses, não toda representação visual utilmente ordenada ao culto. O mesmo livro do Êxodo contém ordens para imagens cultuais e artesanato sagrado, o que exige uma hermenêutica que distingue proibição de idolatria e permissão mediada pelo culto de Yahweh.

         A distinção doutrinária central na teologia católica é entre latria (adoração exclusiva a Deus) e dulia/hyperdulia (veneração aos santos e honra especial a Maria), defendida explicitamente no período patrístico e reforçada no Concílio de Trento. Estudos históricos e patrísticos mostram que a resposta católica às críticas protestantes realçou esse ponto e estabeleceu normas pastorais para evitar idolatria e abusos 

Diferença essencial: latria é o culto adoracional devido só a Deus; dulia é honra reverente aos santos; hyperdulia é honra particular a Maria — essa tripartição é um núcleo explicativo da defesa católica da veneração de imagens.

Concílio de Trento (1545 a 1563): a formulação tridentina sobre invocação e veneração das imagens sublinha que a veneração das imagens não é adoração e que a Igreja regula práticas para evitar idolatria e superstição

Argumentos patrísticos e renascentistas: autores como Thomas More (1478-1535) e teólogos pós-tridentinos argumentaram que a proibição bíblica visa ídolos e que imagens servem como sinais auxiliadores da instrução e devoção.

Critérios pastorais: a tradição conciliar e os sínodos locais enfatizam três critérios para legitimidade — intenção (orientada a Deus ou aos santos), uso (instrutivo e litúrgico, não comercial), e claro ensino para o povo, evitando confusão com culto a criaturas.

         Conclui-se que as acusações e protestos contra o uso de imagem é uma mera má interpretação do texto bíblico e que evidencia uma total falta de diálogo aberto sobre a questão.