segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Quem foram os escritores da Bíblia?

 Como são documentos muito antigos, é difícil dizer com certeza seus reais autores!
Bíblia Sagrada

 A Bíblia contém 73 livros, que contemplam o Primeiro e o Segundo Testamento.

Estamos falando do maior best-seller da história da humanidade, a Bíblia Sagrada, a qual já foi traduzida para quase 3 mil idiomas, e com mais de 3,9 bilhões de exemplares já vendidos no mundo.

Mas quem foram os autores que escreveram esses textos?

Considerando que são documentos muito antigos e anteriores à noção contemporânea de autoria, é difícil dar certeza. Pois no âmbito religioso a Bíblia é inspiração divina, através do Espírito Santo. Por outro lado, uma teologia acadêmica não está preocupada com isso e procura analisar o aparecimento desses documentos dentro do tempo histórico.

Neste sentido, podemos entender os primeiros livros da Bíblia, aqueles que compõem o chamado Pentateuco ou a Torah (Lei), como um compilado de textos que começaram a ser escritos por volta de 1 mil anos antes da era Cristã.

São eles: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, textos que narram desde a criação do mundo até a morte de Moisés.

- A Torah

Pela tradição religiosa, estes cinco livros teriam sido escritos por um único homem, Moisés.

Há duas abordagens possíveis: A da sinagoga diz que quem escreveu a Torah foi Moisés e ponto final; já o viés científico, descarta a ideia de uma autoria única para estes livros.

Do ponto de vista do estudo bíblico, estamos falando de mais de 600 anos de redação.

Com uma análise minuciosa dos documentos permite agrupá-los pelo estilo, pelo vocabulário e pelas concepções em blocos associados a diferentes redatores em diferentes momentos históricos.

Sobre épocas e autores é muito complicado falar porque isso se perde no tempo. Investigações acadêmicas concluem que esses textos têm de 2,7 mil a 3 mil anos e, eventualmente, mais do que isso, já que eram transmitidos de maneira oral.

Estes textos foram canonizados, ou seja, reunidos e considerados integrantes da Bíblia hebraica, por volta do século 4 a.C.

Mas mesmo aí há muitas discussões, e não dá para fechar o assunto. Se forem 600 anos de escrita, quantas pessoas podem ter mexido no texto, criado pedaços em uma região, pedaços em outra?

Em um tempo em que a própria noção de “autoria” era completamente diferente, este mesmo padrão de dificuldade de legitimar quem realmente escreve prossegue nos demais livros da Bíblia hebraica, conjunto que forma o Antigo Testamento da versão cristã.

Por exemplo, os Salmos de Davi são textos que trazem os cânticos que Davi fazia no templo. Mas não temos como garantir que todos os Salmos foram escritos/cantados por Davi.

Evidentemente que foram vários os autores dos textos bíblicos.

As histórias que hoje compõem o texto escrito, antes eram transmitidas de geração em geração de maneira oral. E aquilo permanecia como um tesouro cultural religioso daquele povo.

Precisamos ainda observar que a noção de autoria na Antiguidade não é a mesma que temos hoje em dia. Naquela época, era comum atribuir um texto a uma grande liderança, a um líder carismático, a uma pessoa muito importante. Isso acabaria dando relevância ao escrito.

Neste sentido, seguidores de determinadas doutrinas, quando transformavam o conhecimento em documentos, costumavam sistematizá-los como se fossem algo escrito diretamente por seus mestres.

No caso da Torah, quer dizer que são todos textos de Moisés? Provavelmente que não. Talvez ele tenha tido alguma participação. Mas são textos atribuídos a Moisés.

- Literatura aplicada à Bíblia

Faz muito mais sentido que os livros sagrados do Antigo Testamento tenham sido escritos, depois do estabelecimento do Estado de Israel do que durante os episódios ali narrados, como a fuga do povo hebreu do Egito, sob o comando de Moisés. Imagina um grupo de pessoas perambulando pelo deserto. O que eles menos vão se preocupar é sentar para escrever. Quem está andando no deserto quer, na verdade, sobreviver. Em tantos anos, eles precisavam criar uma estrutura bélica para poder tomar a terra… Ninguém estava preocupado em ficar escrevendo texto.

Mas eram ainda histórias soltas, de gêneros literários diversos, que depois acabaram sendo amarradas, costuradas, por um ou mais redatores.

- Novo Testamento

A literatura também pode ser aplicada na análise dos evangelhos, atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João. Nesse caso podemos afirmar que os autores foram mesmo esses quatro homens. Lembrando que dois de seus autores, Mateus e João, foram apóstolos de Jesus. Os outros dois, Marcos e Lucas, construíram a narrativa colhendo os testemunhos dos apóstolos. Marcos é considerado um autor com estilo mais pedestre, com linguagem direta, mais simples. João tem uma linguagem complexa, mais figurada, cheia de simbolismos. Lucas tem uma linguagem mais aprimorada, mais sofisticada.

Se no Antigo Testamento há mais interrogações do que certezas no campo das autorias, os textos do Novo Testamento, embora mais recentes e com "autorias" descritas na maior parte deles, também despertam questionamentos.

É certo que todos esses textos começaram a ser produzidos cerca de 30 ou 40 anos após a morte de Jesus. Muito provavelmente, todos esses nomes foram estabelecidos pela tradição da Igreja.

Não há nos documentos mais antigos o título nem o nome do autor.

O que parece inquestionável é que o primeiro dos evangelhos é o de Marcos. No momento em que há uma geração, aquela que acompanhou pessoalmente a vida de Jesus, morrendo, há a necessidade de preservar de maneira escrita o que aconteceu. Então ele começa um gênero literário novo que é o evangelho.

Coletando tradições e relatos orais, este evangelista sistematiza a narrativa de Jesus. Mas só usa a parte que naquele momento interessava: ou seja, não se preocupa em falar do nascimento ou da infância de Jesus; foca em sua missão, em sua morte, em sua mensagem de Páscoa.

Ele é muito objetivo e produz um evangelho muito enxuto. Há indícios de que Marcos era um seguidor do apóstolo Pedro. Mas outros vão dizer que era discípulo de Paulo. De qualquer forma, o que sabemos é que não foi um apóstolo de Jesus, direto.

O evangelho de João também suscita dúvidas. Isto porque o texto fala em um "discípulo amado", e a tradição diz que este era João. Mas há teólogos que afirmam que talvez seja Lázaro, porque no evangelho há uma pista que diz que Jesus chorou 'e veja como ele o amava'.

Só no segundo século é que os cristãos passam a atribuir a autoria deste texto a João.

A tradição consagrou, e até hoje chamamos de João. Mas não é fácil saber quem escreveu, talvez até tenha sido uma obra coletiva, uma obra da comunidade joanina.

O melhor é assumir a ideia de que se trata de "evangelhos segundo" cada um destes nomes, em vez de encará-los como autores, no sentido contemporâneo do termo.

- Cartas

Mas se o assunto é o Novo Testamento, é preciso ressaltar o papel de Paulo, o apóstolo que escreveu diversas cartas para as primeiras comunidades cristãs.

As cartas de Paulo, como o nome já evidencia, [foram escritas] por Paulo e seguidores de Paulo. A carta a Timóteo, por exemplo, muito provavelmente é posterior a Paulo, por isso é considerada por alguns estudiosos como sendo deuteropaulina.

Há, porém, controvérsias em relação às cartas atribuídas a Pedro que, ao que tudo indica, não foram escritas diretamente por ele. E a carta aos Hebreus não foi escrita nem por Paulo e muito menos por Pedro.

Entende-se que Paulo tenha sido o primeiro a escrever sobre Jesus, a partir do ano 57 ou 58. A grande questão é saber se ele tinha consciência de que estava escrevendo um texto sagrado. Provavelmente que não.

Ele estava usando de um recurso para se comunicar com igrejas e deixa suas epístolas. Algumas se perderam, algumas que hoje chamamos de suas epístolas podem ter sido escritas por discípulos dele, mas fazem parte de um círculo paulino.

Quando falamos das cartas de Pedro, muito provavelmente é do círculo petrino, até porque Pedro não sabia escrever, e ele deixa isso claro em sua [primeira] carta. Ele usa um redator para escrever. Provavelmente ditou a uma auxiliar que se chamava Silvano.

- Enfim...

Dessa maneira, vemos que diversos foram os escritores sagrados e que alguns deles nunca saberemos ao certo quem foram.

Mas uma certeza é que os textos foram inspirados por Deus e são Palavras de Deus!



terça-feira, 31 de maio de 2022

Cinco pontos chaves do Documento de Aparecida (CELAM V)

 Cinco pontos chaves do Documento de Aparecida (CELAM V)

1 – Batismo como a base do ser cristão e experiência eclesial; pelo Batismo todos somos discípulos e missionários de Jesus Cristo em sua Igreja;

2 – Uma Igreja em estado permanente de missão; Igreja em saída; Igreja que se faz presente no mundo, levando o Reino de Deus a todos;

3 – Conversão pastoral da Igreja (Santo Domingo 30); Conversão no âmbito das ações perante os novos desafios; Conversão no âmbito de poder; Conversão no âmbito de estruturas;

4 – Cada comunidade eclesial precisa ser um centro irradiador do Reino da vida; Igreja é mediação do Reino de Deus; missão centrífuga e não centrípeta; Semear, frutificar;

5 – Igreja samaritana (Paulo VI) e advogada dos pobres (opção pelos pobres Medelin, preferencial pelos pobres Puebla); Não é opção contra o rico, mas que o rico ajuda a promover a inclusão dos pobres;

6 – Itinerário do discipulado missionário; Qual o caminho que o discípulo missionário deve fazer? Encontro pessoal com Jesus; Conversão pessoal; Mudança de vida integral;


Pedro Debarba - Teólogo


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Igreja em serviço à sociedade

Por Pe. Antonio Manzatto*

O Vaticano II compreende a Igreja presente no mundo como servidora dele na proclamação da boa-nova da salvação em Jesus Cristo. O papa Francisco retoma esse ensinamento, lembrando que o mundo todo precisa ser salvo, e por isso a confissão de fé e a ação eclesial têm uma dimensão social que lhes é inerente e precisa ser realizada como contribuição dos cristãos na construção de uma sociedade de paz.
“Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (EG 176).

1. Igreja e mundo
Na Antiguidade, a Igreja enxergava sua relação com o mundo como uma relação de oposição. Isso transparece no período da Igreja primitiva e também na época patrística. Por mundo se entende, evidentemente, não o universo físico, mas sobretudo o social. Falando de uma Igreja contra o mundo, fala-se de uma Igreja contra a sociedade tal qual organizada naquela época. E não é difícil entender o porquê, pois, afinal, se vivia o início do cristianismo em ambiente de confrontação e mesmo de perseguições, sobretudo por parte do Império Romano. Daí que ser contra o mundo era uma postura quase natural dos cristãos, que proclamavam que Jesus é o Senhor, e não César. A evolução do tempo e da história faz também evoluir a compreensão que a Igreja tem de sua relação com o mundo. No período medieval, então, haverá uma espécie de identificação entre Igreja e mundo, não apenas porque o cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano e dos Estados que lhe sucederam, mas também porque o mundo todo, ao menos do lado ocidental, passou a ser cristão. Não havia maiores diferenças entre ser cristão e ser cidadão e o batismo era a ocasião em que se oficializava a pertença do indivíduo ao grupo social. Assim, a Igreja era o mundo e o mundo era a Igreja, uma relação de identificação que perdurou praticamente durante todo o período medieval.
O surgimento da modernidade provoca nova organização dessa relação, ainda que de maneira unilateral. O mundo passa a compreender-se como algo diferente da Igreja, isto é, a sociedade começa a organizar-se fora da influência eclesiástica. O símbolo é a Revolução Francesa, da qual decorre a compreensão de que os Estados podem organizar-se como entidades separadas das influências religiosas cristãs. Ainda que não se preconize a laicidade do Estado, que virá a ocorrer mais tarde, ainda assim já na época se compreende a sociedade separada da Igreja. A reação da Igreja foi de insatisfação com essa situação, e seu combate ao modernismo todos conhecemos bem. Ainda hoje há setores na Igreja que combatem essa situação e anseiam pela volta ao regime de cristandade, por motivos igualmente conhecidos.

2. Vaticano II
A separação entre Igreja e mundo faz que o mundo evolua tanto na organização social quanto na capacidade técnica, enquanto a Igreja permanece como que em passo medieval, incapaz de acompanhar os avanços vividos pelas sociedades. A inspirada iniciativa de João XXIII de convocar o Concílio Vaticano II cria uma oportunidade de reaproximação entre a Igreja e a sociedade com seus anseios. A esse empenho eclesial de reencontrar e acompanhar o passo das sociedades humanas chamou-se aggiornamento, atualização. Eis a grande realização do Concílio Vaticano II: possibilitar que a Igreja consiga de novo dialogar com o mundo e a humanidade que o habita. Mais ainda, a Igreja se reconhece, nas palavras da Gaudium et Spes, servidora do mundo, pois não é a Igreja que precisa ser salva, mas o mundo.
Essa noção de Igreja servidora do mundo é que comandará a ação pastoral nos anos seguintes ao concílio, exatamente com a Igreja atentando ao fato de que sua ação é, antes de tudo, pastoral. Por ação pastoral se entendem não apenas as atividades religiosas, como orações e celebrações, e administrativas, próprias da organização eclesiástica, mas também aquelas que se preocupam fundamentalmente com a organização da vida das pessoas e das sociedades. Têm lugar, então, os grupos pastorais que atuam junto ao mundo do trabalho, da cultura, da política e assim sucessivamente. A pastoral é entendida como a ação do pastor, cuja função é cuidar do rebanho. Não é o rebanho que existe em função do pastor, nem é função do rebanho cuidar do bem-estar do pastor. Ao contrário, é o pastor que existe em função do rebanho e deve dele cuidar.
A Igreja vê sua ação como a de cuidado com o mundo, com as pessoas que o integram. É nesse sentido que ela é servidora do mundo e lhe anuncia e testemunha a salvação. As preocupações com as situações concretas vividas pelos povos passam a figurar na agenda da ação pastoral. A paz, o desenvolvimento dos povos, o estabelecimento da justiça entre as nações, as possibilidades com relação ao trabalho, à cultura e o acesso aos benefícios da sociedade são assuntos constantes nos documentos eclesiais e vivos nas preocupações dos pastores. A Igreja abre-se ao mundo, reconhecendo sua autonomia, a autonomia das realidades terrenas, e, por sua vez, o mundo aceita dialogar com a Igreja como uma interlocutora confiável. As preocupações sociais integram o horizonte de preocupações da Igreja, pois “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS 1).
Paulo VI, o papa que implementou as decisões conciliares, escreveu em 1974 importante documento sobre a ação evangelizadora da Igreja, a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. Ocorre que rapidamente houve queixas no sentido de que a Igreja estaria abandonando sua missão religiosa, anunciar o evangelho, e assumindo um discurso social que não lhe dizia respeito. O papa, então, lembra que “entre evangelização e promoção humana existem laços profundos”, de tal forma que não se pode pensar a evangelização como ação eclesial sem que as preocupações com a promoção humana lhe acompanhem. A preocupação fundamental da Igreja é com o ser humano, com todo homem e o homem todo, para dizer como o papa Paulo VI na EncíclicaPopulorum Progressio. Foi nesse horizonte do Vaticano II que se organizou no Brasil a Campanha da Fraternidade, e atualmente os bispos lhe dão um conteúdo de alcance social, que relaciona a fé com a vida prática das pessoas e promove intensa campanha pela humanização das relações na sociedade. Neste ano de 2015, o tema é como que a compilação disso que até agora dissemos: “Fraternidade, Igreja e sociedade”; o lema, “Eu vim para servir”, lembra o compromisso do serviço dos discípulos de Cristo.

3. O papa Francisco
É convicção de todos que Francisco humanizou o papado. Seus gestos, palavras e preocupações mostram claramente o papa como um ser humano e, mais que isso, como alguém preocupado com as pessoas. Sua postura é intencional e nitidamente pastoral, e seu ensinamento precisa sempre ser entendido nessa direção. Trata-se do pastor que se preocupa com o rebanho, daí sua atenção às periferias existenciais, à prática da misericórdia, a uma Igreja que precisa sempre estar pronta a acolher, perdoar e curar feridas. Uma Igreja que não pode se satisfazer em si mesma, mas precisa missionariamente ir ao encontro do mundo, das pessoas e da sociedade, para ali anunciar e testemunhar o evangelho de Jesus, que Aparecida chamava de evangelho da dignidade humana. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, documento papal que fala sobre a nova evangelização e alude, propositalmente, aos dois documentos que trazem o ensinamento do Vaticano II sobre a ação eclesial,Gaudium et Spes e Evangelii Nuntiandi, tem um capítulo inteiro dedicado à dimensão social da evangelização. Francisco parece dar um passo além na compreensão da relação entre o anúncio da Igreja e a organização da sociedade. Não se trata de querer impor ao mundo um modelo social, como no período de cristandade. Nem se trata de discurso que quer acomodar a vivência eclesial às situações do mundo contemporâneo. E também não se trata de aceitar, passivamente, um distanciamento entre a Igreja e o mundo. Trata-se de retomar a postura conciliar da Igreja como servidora do mundo pelo anúncio e testemunho profético. Por isso, falando a cristãos, a Evangelii Gaudium afirma que a evangelização tem, mais que consequência, uma dimensão social.
O passo avante é importante. Não se vê simplesmente a ação social de promoção humana como consequência da ação evangelizadora da Igreja, algo que parece ser óbvio. Também não se diz que o trabalho da Igreja não tem nada a ver com a sociedade, como se fosse simplesmente anúncio de verdades e práticas religiosas, das quais a caridade seria como que uma derivação de perfeição. Francisco afirma que a ação social é uma dimensão da ação evangelizadora, de tal forma que não há evangelização sem promoção humana. Não se trata de consequência, mas de composição: a preocupação com a forma de organização da sociedade é componente do trabalho evangelizador. Afinal, lembra ele, não é apenas a pessoa que é salva pela ação de Deus, mas também suas relações (EG 178). Assim, a caridade é constitutiva da essência da Igreja e de sua missão (EG 179), de maneira que, mesmo no querigma, existe um conteúdo social, em forma de convivência e ajuda ao próximo (EG 177). E o papa ainda aponta dois lugares prioritários onde deve se manifestar de maneira decisiva a dimensão social da ação evangelizadora: a realidade de sofrimento dos pobres e a implementação da cultura do diálogo para a vivência da paz.

4. Opção pelos pobres
A opção pelos pobres é mais teológica que política ou sociológica (EG 198) e, por isso, Bento XVI já a caracterizava como implícita na fé cristológica (DAp 392). Trata-se de reconhecer, em primeiro lugar, a presença de Deus no meio dos pobres, onde ele se revela e oferece um caminho de salvação para toda a humanidade. Paulo já a afirmava como critério da fidelidade ao evangelho de Jesus (Gl 2,10), de tal forma que, sem ela, não há verdadeiramente evangelização (EG 199). Por isso, Francisco afirma sonhar com uma Igreja pobre para os pobres (EG 198).
Se, de um lado, não se pode apenas ter atenção à ortodoxia e se preocupar com eventuais erros doutrinais, por outro, a opção pelos pobres não se concretiza apenas em um ativismo expresso em programas de assistência ou promoção humana, mas também em uma presença solidária junto aos pobres (EG 199). É um estar ao seu lado, ser com os pobres, preocupar-se com sua realidade pessoal e humana, em espírito de comunhão e convivência. A Igreja não é alheia ao mundo dos pobres, e estes não podem ser estranhos na comunidade eclesial. O amor aos pobres é que diferencia a opção pelos pobres de qualquer outra prática ideológica, evitando sua instrumentalização (EG 199).
Ainda mais, a opção pelos pobres não se realiza apenas em ações de assistência em suas necessidades.
Elas são necessárias e não podem ser esquecidas, mas não são suficientes. Porque não se trata apenas de alimentá-los ou proporcionar-lhes possibilidades de sobrevivência, mas sobretudo eliminar as desigualdades, a fim de que o mundo possa se constituir em ambiente onde o valor da pessoa humana seja privilegiado. “A dignidade da pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica” (EG 203), lembra o papa, e as causas da pobreza precisam ser atacadas para que a sociedade seja mais justa e humana (EG 202-206).
A ação cristã se transforma, por isso, em compromisso político que visa transformar não apenas o coração das pessoas, como se isso bastasse para transformar automaticamente as situações de injustiça no mundo.
Deve-se transformar também as bases estruturais da sociedade, e por isso nenhuma comunidade cristã pode ficar alheia à realidade de vida dos pobres. Os discursos vazios, as práticas religiosas não comprometidas ou mesmo as simples críticas ao governo não dizem da qualidade da vida de fé da comunidade eclesial, mas sim seu efetivo compromisso com a realidade de vida dos pobres, em atitude de solidariedade (EG 207). Ou, para dizer em outras palavras, a comunidade cristã morre se não houver em seu interior efetivo compromisso com a vida daqueles que são os últimos da sociedade.

5. Cultura do diálogo
A paz é fruto da justiça, já lembrava Paulo VI, e por isso ela não pode ser entendida como simples ausência de violência ou imposição de silêncio dos mais fortes sobre os mais fracos. Não é o modelo da Pax Romana que deve ser seguido, porque isso não significa verdadeira paz (EG 218). Esta se baseia no respeito à dignidade das pessoas, aos direitos humanos e aos direitos dos povos. Não se deve escamotear os conflitos, mas enfrentá-los com serenidade para que eles possam ser superados.
Por isso Francisco lembra que o estabelecimento da paz não se faz simplesmente na interioridade das pessoas ou no nível interpessoal. Deve-se atingir um nível mais amplo e profundo, aquele da formação da sociedade e da convivência entre os povos. Uma sociedade ou povo não se constitui por simples aglomeração de pessoas, mas por relações estabelecidas entre elas e governadas por princípios que valorizam o bem comum, segundo os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja. Por isso o papa ensina que “o tempo é superior ao espaço” (223-225), o que permite pensar a construção social a longo prazo sem a obsessão de resultados imediatos. Ensina ainda que os conflitos não podem ser ocultados, mas “a unidade prevalece sobre o conflito” (EG 226-230), ou seja, em vez da tentativa de impor sobre os outros a solução do grupo que se quer vitorioso, o princípio da unidade exige uma capacidade de convivência na diferença como proposta de solidariedade.
Além disso, “a realidade é mais importante que a ideia” (EG 231-233), isto é, o pensamento está a serviço da compreensão da realidade e não pode ocultá-la, como acontece com “os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projetos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria” (EG 231).
Finalmente, Francisco lembra que “o todo é superior à parte” (EG 234-237), com a proeminência do bem comum sobre os possíveis benefícios particulares, sabendo que se deve trabalhar naquilo que é local e particular, mas com perspectiva ampla de universalização e de totalidade.
Estes são princípios que norteiam o diálogo social e, ademais, o trabalho de evangelização. Não se constrói a paz sem a cultura do diálogo. Para a ação eclesial propriamente dita, ele aponta três campos imprescindíveis na atualidade: o diálogo com os Estados, com a sociedade e com os que não são católicos (EG 238). Nesse diálogo, a Igreja fala a partir de seu lugar específico, o da experiência da fé, sem se apresentar como portadora de soluções para todas as questões da humanidade. Ela participa deste encontro com sua história e sua experiência, juntando-se a outras forças sociais e acompanhando as propostas que melhor se apresentam no momento, lembrando sempre a permanência dos princípios da dignidade humana e do bem comum (EG 139). A postura dialogal da Igreja é importante no contexto atual até para ela mesma, pois significa a superação da perspectiva de cristandade, na qual o religioso tem a solução para cada questão e a sociedade se organiza à luz de seus princípios ou definições. Hoje a sociedade é plural e, como a construção da paz não se faz por imposição, deve-se cultivar espaços de encontro e interação sobre os diferentes pontos de vista e propostas. A perspectiva é de diálogo amplo, que se estabelece com todos, com “a gente e sua cultura, e não com uma classe, uma fração, um grupo ou uma elite”, pois o que se busca não é a formação de “uma minoria esclarecida ou um grupo testemunhal […] mas um pacto social e cultural” (EG 239). O que se quer não é uma solução universal, já que ela será sempre parcial e contextualizada, nem uma apresentação de verdades conceituais que se querem impor por proselitismo, mas uma espécie de consenso que possibilite a convivência em paz, a fim de que se possa avançar na integração social de todos. Esse consenso será sempre limitado e provisório, precisando ser reconstruído pelo diálogo permanente estabelecido entre os diferentes.
Aqui se tem toda uma perspectiva diferente do que se constrói com o trabalho evangelizador. A nova evangelização não se resume à simples catequese, entendida como ensinamento de fórmulas doutrinais, ou à realização de celebrações ou momentos devocionais que emocionem ou atraiam multidões. É claro que tudo isso pode ser feito; contudo, o que se busca é a prática da fraternidade em vista do estabelecimento de uma sociedade de convivência, onde as diferenças sejam respeitadas e ninguém seja excluído, a começar pela integração dos pobres e dos sofredores.

6. Teologia latino-americana
É verdade que a Igreja da América Latina se caracteriza por uma preocupação social bastante pronunciada, e isso vem de longa data. As comunidades eclesiais de base, por exemplo, atuaram decididamente na participação política em vista da conquista de melhores condições de vida para a população. A Igreja no Brasil, como um todo, caminhou bastante nessa direção e a própria realização, a cada ano, da Campanha da Fraternidade é testemunha disso. Muito do que se conseguiu em avanço na sociedade brasileira, a começar pela conquista da redemocratização, contou com a participação dos cristãos e da Igreja. É verdade também que, de tempos para cá, a preocupação social cedeu lugar a outras práticas eclesiais, algumas mais preocupadas com certa interiorização do sentimento religioso. Em certo sentido, a Igreja preocupou-se mais em olhar para si mesma, seu interior e sua organização, do que para seu lugar na sociedade e a realidade do mundo que a cerca.
O papa Francisco parece indicar o caminho da retomada das preocupações sociais. É verdade que a sociedade mudou bastante nos últimos anos e o discurso teológico-pastoral de décadas passadas não pode simplesmente ser aplicado na atualidade. A teologia tem consciência disso e por isso avançou nos últimos anos, também aquela que leva o nome de teologia latino-americana. O discurso foi atualizado, mas permaneceu a preocupação com os pobres e com a organização de uma sociedade da qual todos possam participar. Não é de estranhar que o papa latino-americano retome as intuições e práticas fundamentais da Igreja do continente e as apresente, renovadas, a todos os cristãos.
Fiel ao Vaticano II e à realidade dos pobres tal qual apresentada pela teologia da Igreja na América Latina, Francisco insiste no trabalho evangelizador que converta, além dos corações, as estruturas da sociedade em vista da concretização do Reino de Deus. O discípulo missionário de Jesus Cristo, lembra o papa, não se satisfaz em viver sua fé apenas em comportamentos religiosos, mas vai além, traduzindo nos atos cotidianos a convicção de que o Reino de Deus está presente no mundo e se pode viver em sua dinâmica por meio da solidariedade com os pobres e o fortalecimento dos laços de fraternidade entre todos, em um relacionamento novo que permita o respeito às diferenças, aos direitos humanos e à integridade da criação.

7. Igreja e sociedade
A fé cristã não pode ser reduzida ao domínio privado da vida. Aliás, lembra Francisco, nenhuma convicção religiosa pode sê-lo. Se a sociedade atual é plural, também no aspecto religioso, isso não significa a “privatização das religiões, com a pretensão de reduzi-las ao silêncio e à obscuridade da consciência de cada um ou à sua marginalização no recinto fechado das igrejas, sinagogas ou mesquitas” (EG 255). O diálogo ecumênico e inter-religioso não se esgota no respeito às diferentes formulações doutrinais, mas alcança propostas que visam ao estabelecimento da paz no espaço público. O respeito devido a quem não crê não pode se impor arbitrariamente, silenciando as convicções religiosas de quem crê. Afinal, a religião não visa preparar o crente apenas para viver no outro mundo, mas também para viver neste mundo, transformando-o em outro, onde reine a justiça, a tolerância e a fraternidade. Este parece ser o ponto central do ensinamento de Francisco, o qual a Campanha da Fraternidade pode aprofundar, no sentido de perceber a função social da religião e, mais que isso, a dimensão social do trabalho de evangelização.
A fé não se reduz ao privado, pois comporta implicações sociais. A convicção da fé cristã pode, ou deve, levar o crente à manifestação mais contraditória da mística do amor ao próximo: a da prática política, própria do discípulo missionário de Jesus Cristo. Afinal, a pregação da Igreja é bem mais que o anúncio de algumas verdades religiosas, pois é o anúncio da chegada do Reino de Deus. A Igreja não se anuncia a si mesma nem tem um fim em si mesma, mas está a serviço do Reino, exatamente como Jesus fez durante sua vida.
Trata-se de anunciá-lo e fazê-lo acontecer, sem resumir a fé ao culto ou à oração, mas envolvendo-os no compromisso com uma nova sociedade, mais humana e solidária. Afinal, o Reino de Deus realiza-se em novas relações: de filiação estabelecida com Deus e de fraternidade estabelecida entre as pessoas. Não deixa de ser curioso notar certas tendências culturais atuais, algumas às quais se adere rápido demais, como as do racionalismo ou de um laicismo exagerado, que não aceitam a afirmação da dimensão social da fé cristã. Há também tendências eclesiais que agem assim, como o conservadorismo, que quer guardar a fé no domínio do privado, sem aceitar suas implicações sociopolíticas. Lembram que na sociedade há quem não crê e, por isso, não se pode impor-lhes convicções religiosas ou derivadas da religião; ou então lembram o caráter confessional da teologia e a prática de fé como interiorização espiritual. Não é sem interesse notar que o discurso religioso conservador se liga a um discurso social dito progressista, talvez porque a ideologia dominante de ambos seja a mesma, a de guardar os benefícios da sociedade para aqueles que a dominam, evitando a partilha dos bens sociais. É preciso aqui recuperar o caráter profético do anúncio do Reino e da proclamação da fé, também para denunciar os interesses que se escondem atrás de belos e elaborados discursos, até porque faz parte do trabalho de evangelização a denúncia das idolatrias. Francisco, aliás, denuncia também as novas idolatrias que fundamentam o sistema social atual (EG 55-56), combatendo-as para que se possa construir uma sociedade humana.
O trabalho de evangelização não quer apenas repetir o que já foi feito como proclamação de verdades doutrinais. Deve-se proclamar, sim, a chegada do Reino de Deus e caracterizá-lo como o fez Jesus, como novas relações estabelecidas entre todos, pois todos são irmãos e filhos de Deus. A proclamação da chegada do Reino não isenta a Igreja do envolvimento na construção de uma nova sociedade, de um mundo novo onde todos possam ser integrados, a começar pelos últimos. Por isso, a proclamação da dignidade de toda pessoa humana, do estabelecimento da justiça nas relações sociais e da necessária construção da paz no respeito a todos é parte integrante do trabalho eclesial em seu serviço ao mundo, realizado em espírito de diálogo e como contribuição para o desenvolvimento dos povos.

Bibliografia

FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 24 nov. 2013.
PAULO VI. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 8 dez. 1975.
PAULO VI. Carta Encíclica Populorum Progressio, 26 mar. 1967.
VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 7 dez. 1975.

*Pe. Antonio Manzatto,
Presbítero da Arquidiocese de São Paulo, doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina (1993) e professor titular da Faculdade de Teologia da PUC-SP. E-mail: amanzatto@pucsp.br
http://vidapastoral.com.br/artigos/eclesiologia/igreja-em-servico-a-sociedade/

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Padres "comunistas", por Frei Sérgio Antônio Görgen

 Nos idos dos anos 80 do século passado fui muitas vezes achacado com esta consigna “padre comunista”.

Mais recentemente fui batizado de “frei melancia”. Diz que é “ecologista”, mas é mesmo “comunista”: verde por fora, vermelho por dentro.

Nos mesmos idos de 80 recebi duas cartas ameaçadoras do CCC – Comando de Caça aos Comunistas. Ameaçavam me esfolar e até eliminar caso não me convertesse ao que achavam ser o “verdadeiro” cristianismo. Nunca me tiraram um único minuto de sono.

Não pensei que este besteirol um dia voltasse. Pois não é que voltou! Qualquer frase solta que fale em libertação, defesa de direitos, anti-fascismo, sociedade solidária, já vem a pecha: padre comunista.

Embora vivendo a vocação de simples frade, consagrado e não ordenado, pelo fato de estar há muitos anos com “sem terra”, camponeses, pequenos agricultores, indígenas, quilombolas, pescadores, defendendo suas causas e lutando por distribuição de terras e rendas, estou no rol dos ditos cujos e, inclusive, me promovem a “padre”.

Nem hoje me tiram o sono. Sei a fé que abracei.

Mas me imaginei num tribunal inquisidor formado por católicos tradicionais, rançosos e raivosos, enfeitiçados pelo bolsonarismo, convencidos até à medula da autenticidade pura e única de sua religião medieval pintada de nova com o uso das modernas redes sociais.

Para evitar ser crucificado com esta acusação no tribunal das novas mídias pensei numa fortificada linha de defesa: vou me ancorar na Bíblia.

Aí comecei a perceber que minha defesa tem vários furos e fiquei com medo de ser, mesmo com tão poderosa defesa, condenado.

Então resolvi tomar uma providencial providência: vou rasgar da Bíblia os textos que podem me condenar.

Comecei rasgando os 4 primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos. Aquelas partes que dizem que “os cristãos tinham tudo em comum e não havia necessitados entre eles” e “vendiam os seus bens e colocavam o valor aos pés dos apóstolos” para repartir com os necessitados, poderiam me condenar. E ainda o apóstolo Pedro dizendo que “Deus não faz distinção de pessoas” … Nossa! Comunismo puro.

Depois arranquei a Carta de Tiago inteira. Aquela mania de São Tiago em dizer que “a fé sem obras é morta” e que “ricos, vossa riqueza apodreceu” e “os gritos dos ceifadores de quem vocês tiraram o salário chegaram aos ouvidos de Deus”. Preocupante. Inútil para minha defesa.

Depois comecei a dar uma repassada nos Evangelhos. Fiquei preocupadíssimo com o Cântico de Maria, no Evangelho de Lucas. Nossa Senhora rezando que Deus “vai derrubar os poderosos de seus tronos e exaltar os humildes, saciar os famintos e despedir os ricos de mãos vazias”. PelamordeDeus. Rasguei na hora. Além de me condenar, poderia atrapalhar muitos inescrupulosos que usam as devoções marianas do povo simples para ajuntar dinheiro e falar mal do Papa Francisco e da Igreja comprometida com os pobres, em nome de Nossa Senhora.

Rasguei também a parábola do rico comilão e do pobre Lázaro. Rasguei e queimei, para não deixar vestígios, a passagem dos trabalhadores desempregados na praça que receberam o mesmo valor dos contratados mais cedo, pois podem interpretar “de cada um conforme sua capacidade e a cada um conforme sua necessidade”; também aquelas em que Jesus distribui pães e peixes às multidões famintas; eliminei todas onde Ele convida doentes, coxos, mendigos, pobres, abandonados para o banquete do Reino para o qual os “bem de vida”, convidados, recusaram; destruí várias em que Jesus diz “vai, vende o que tens, dá aos pobres e depois vem e segue-me”; aquelas do camelo passando pelo buraco da agulha antes de ricaços aceitarem o Reino de Deus… Credo. Comunismo puro na mente desta gente cega de ódio.

Arranquei também o Pai Nosso. Vai que atentem que o Mestre ensinou a orar pela vinda do Reino e pelo cumprimento de Sua vontade “assim na terra como no céu”. Esta coisa do Reino na terra, aqui neste mundo, não, não, não. “O meu Reino não é deste mundo”. Esta é a interpretação correta. Reino também neste mundo, é Teologia da Libertação. E TdL é comunismo. E depois aquela parte de pedir “o pão nosso de cada dia”, nem pensar. Comida para todos é coisa de comunista. Para evitar problemas, rasguei.

A expulsão dos vendilhões do templo, eliminei nos quatro Evangelhos. Credo. Uma da poucas vezes que o Mestre enraiveceu foi quando viu comércio com a fé do povo. Risco grande de Ele também ser classificado como comunista. Proibir arrancar dinheiro do povo em troca de bençãos, curas, preces e graças, comunismo puro.

Aquela parábola do Samaritano fazendo o que sacerdotes e pastores deviam fazer e não fizeram, acolhendo e cuidando do pobre jogado à beira da estrada, fiquei mesmo em dúvida. Porque caridade assistencial, pode. O que não pode é perguntar: quem o assaltou? quem o roubou? Talvez por isto os servos do templo preferiram passar ao largo. Aproximar-se dos pobres pode levar a compromissos mais profundos. Droga. Já estou com argumentação comunista para a mente poluída dos que me acusam. Sem riscos. O Evangelho de Lucas não terá mais esta parábola quando o apresentar em minha defesa. 

Rasguei também as Bem Aventuranças e as mal aventuranças de Lucas. “Bem aventurados vós os pobres”, “Malditos vocês ricos”, doideira, luta de classes, marxismo, vade retro, satanás. “Bem aventurados os que tem fome e sede de justiça”, de Mateus, excluí também.  Olhei melhor e excluí também, em Mateus, a bem aventurança da paz, pois agora são tempos de armas e cruzadas contra os inimigos e hereges. Falar de paz contraria o novo “messias” da metralhadora no lugar do feijão.

Bah. E aquele texto em que Jesus afirma “vós TODOS” sois irmãos”. Vai que neste TODOS imaginem que estejam “sem terra”, negros, índios, LGBTQI+, “sem teto”, migrantes, moradores de rua, “todos estes que não prestam”… Meus IRMÃOS, estes? Nem a peso de ouro. Comunismo. Página rasgada.

E aquela cena de lavar os pés dos discípulos e dizer: “os grandes da terra dominam com tirania, entre vocês não seja assim”. Quebra de hierarquia social. Sem dúvida, comunismo. Decidi não correr risco e página no fogo.  

Tomei algumas precauções a mais: eliminei a passagem de João em que uma mulher surpreendida em adultério ia ser apedrejada e Jesus não deixou. Vão pensar que defendo pessoas de “má vida”. Além do mais, poderia perguntar: por que o homem adúltero estava livre das pedradas? Esta mania de fazer perguntas que levem a pensar é coisa de Paulo Freire, um comunista-mor.

Eliminei também aquela em que Marta pediu que Maria voltasse para a cozinha e Jesus garantiu o direito de as mulheres participarem do mesmo círculo que os homens em pé de igualdade. As mulheres podem querer exigir demais baseadas nisto. Risco eliminado. Feminismo é fruto do comunismo, e ponto final.

 Aí passei a me preocupar com o Antigo Testamento. Rasguei o profeta Isaias inteiro. Muito perigoso. Depois Amós. Eliminei Oseias. Retirei Miqueias. Muito contra a exploração e a favor dos injustiçados. E ainda Esdras e Neemias assembleistas e distributivistas demais. Não me ajudarão na defesa.

Minha Bíblia estava ficando pequena, mas, paciência, eu precisava salvar meu couro da sanha anticomunista.

Aí passei a me preocupar com o Êxodo. Organizar escravos, enfrentar governantes tiranos, acampar em deserto e conquistar terra prometida, e Deus apoiando, credoemcruz, isto é MST na veia, comunismo da gema. Eliminei o livro inteiro.

Mas aí lembrei também de Levítico e Deuteronômio. Aquelas leis para garantir justiça, estabelecer ano sabático para devolver terras, e ainda dizer “que entre vós não existam pobres”… Perigoso demais. Dois livros a menos.

Aí cansei. A Bíblia já estava miudinha. Preservei os textos de Salomão cobrando impostos pesados ao povo, vivendo no luxo, com 700 esposas oficiais e mais 300 concubinas. Este sim, garanto que não tem nada de comunista. Façamos templos e altares a Salomão.

Até pensei em argumentar que os primeiros defensores modernos de uma sociedade de iguais, embora utópica, foram dois pensadores cristãos: Morus e Campanela.

Também pensei em fazer distinção entre socialismo e comunismo, para que, pelo menos, se saiba do que se está falando quando se multiplicam falas superficiais por aí afora sobre o tema. E que o socialismo, como movimento histórico, despido de ateísmo e totalitarismo, recebeu abertura para engajamento cristão na encíclica Octogésima Adveniens do Papa São Paulo VI.

Mas acho que diante de tanta pequenez intelectual e tanto fanatismo cego, de pouco adiantará.

Talvez nem minha diminuta Bíblia rasgada e purificada me sirva de defesa.

Mesmo assim continuarei frade engajado nas lutas sociais em defesa dos desprotegidos, excluídos e explorados, anti-capitalista, socialista e seguidor de Jesus de Nazaré, o Cristo Crucificado e Ressuscitado.

Melhor ser acusado de comunista do que ser, de fato, alienado, omisso, em má consciência com a fé que professo.

Me chamem do que quiserem e me ataquem como quiserem.

Mas, por preferência, gostei mais de ser chamado de “frei melancia”: aquele suco vermelho é muito doce.  


Frei Sérgio Antônio Görgen ofm – Frei Franciscano, militante do MPA, autor de “Em Prece com os Evangelhos”.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Por que a violência no Antigo Testamento?

Muitos fazem esta pergunta. Pois bem, o frei Inácio Cantalamessa, O.F.M, Capuchinho, Pregador do Papa, na Basílica de São Pedro, no dia 03 de abril de 2015, Sexta-feira Santa disse algo muito interessante. Transcrevo aqui o que ele disse:

“Alguém poderia objetar: mas a Bíblia também não está cheia de histórias de violência? Deus mesmo não é chamado de “Senhor dos Exércitos”? Não é atribuída a Ele a ordem de exterminar cidades inteiras? Não é Ele quem decreta, na Lei mosaica, numerosos casos de pena de morte?

Se tivessem dirigido a Jesus, durante a sua vida, esta mesma objeção, Ele certamente teria respondido o que respondeu sobre o divórcio: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19,8). Também sobre a violência, “no princípio não foi assim”. O primeiro capítulo do Gênesis mostra um mundo onde a violência não é sequer pensável, nem dos seres humanos entre si, nem entre homens e animais. Nem sequer para vingar a morte de Abel, e assim punir um assassino, é lícito matar (cf. Gn 4, 15).

O genuíno pensamento de Deus é expresso pelo mandamento “Não matarás”, e não pelas exceções abertas na Lei, que são concessões à “dureza do coração” e dos costumes dos homens. A violência, depois do pecado, infelizmente faz parte da vida; e o Antigo Testamento, que reflete a vida e deve servir à vida, procura pelo menos, com a sua legislação e com a própria pena de morte, canalizar e conter a violência para que ela não se degenere em arbítrio pessoal. [Cf R. Girard, Delle cose nascoste sin dalla fondazione del mondo, Adelphi, Milão 19963.].

Paulo fala de uma época caracterizada pela “tolerância” de Deus (Rm 3, 25). Deus tolera a violência como tolera a poligamia, o divórcio e outras coisas, mas educa o povo para um tempo em que o seu plano original possa ser “recapitulado”, como para uma nova criação. Esse tempo chega com Jesus, que, na montanha, proclama: “Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente; mas eu vos digo: não resistais aos malvados; se alguém vos bater na face direita, oferecei também a outra… Ouvistes o que foi dito: amai o vosso próximo e odiai o vosso inimigo; eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,38-39; 43-44).

O verdadeiro “sermão da montanha” que mudou o mundo, no entanto, não é aquele que Jesus fez um dia sobre uma colina da Galileia, mas aquele que Ele proclama agora, silenciosamente, na cruz. No Calvário, Ele pronuncia um definitivo “não!” à violência, opondo a ela não apenas a não-violência, mas o perdão, a bondade e o amor. Se ainda houver violência, ela já não poderá, sequer remotamente, remontar a Deus e revestir-se da sua autoridade. Fazer isto significa retroceder na ideia de Deus a estágios primitivos e grosseiros, superados pela consciência religiosa e civil da humanidade” (Fim da pregação de Cantalamessa).

A história de Israel é a história de uma educação de um povo que vivia no meio dos pagãos, muitos deuses e repletos de costumes errados que penetraram na sua cultura. Esse “limite da cultura”, como diz Bento XVI, não permitia ainda a Deus fazer o povo entende-lo de outra maneira. Então Deus tolera o divórcio, a poligamia, e outros erros que vemos o Antigo Testamento. Mas, devagar, por fases, Deus faz seu povo sair da violência em Seu Nome, até o dia em que Jesus diz no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos”.

Deus é paciente porque é eterno; não tem pressa; Ele sabe que existe um caminho para lidar com a nossa dureza de coração, tibieza de alma e preguiça espiritual; então vai devagar conosco para que não o abandonemos de vez. Na cultura e na moral da época, esse agir “violento” de Deus, era, para o povo, normal e legítimo. Ninguém entende a história se não entende a mentalidade da época em que os fatos aconteceram. Esta é a nossa dificuldade para entender o passado.

No começo da Bíblia, os primeiros capítulos do livro do Gênesis falam da criação e da origem da humanidade: a violência não tem sua origem em Deus. A primeira consequência do pecado é a violência. Em meio à rivalidade, Caim mata Abel. Deus quer acabar com o ciclo infernal da violência e protege Caim; não permite que outros o matem. Mas a violência continua. E aumenta tanto que Deus se arrepende de ter criado o homem. “A terra está repleta de violência por causa dos homens”, diz a Noé. E Deus faz um novo começo, a partir do único justo que encontra: Noé e sua família!

Deus permite que o dilúvio elimine pecadores e pecados. Não é vingança divina; é correção; a Justiça perfeita de Deus, mas não pode deixar indefinidamente que se propaguem o mal, a injustiça, a violência, o pecado. Então, Ele corrige o homem segundo os seus costumes, sua época, sua mentalidade.

Muitas passagens da Bíblia utilizam uma linguagem de imagens. E não podemos, com mentes superficiais, encarar isso com superficialidade. Por exemplo, Deus impediu que Abraão lhe oferecesse seu filho em sacrifício e esta proibição permanecerá. Abraão estava acostumado com sacrifícios humanos aos deuses da Babilônia, de Ur na Caldeia, de onde Deus o tirou. Por isso Ele aceitou sacrificar Isac, mas Deus só estava testando o seu amor.

Outro exemplo: Em Jerusalém, o vale de Geena está amaldiçoado porque reis ímpios acreditavam atrair os favores divinos sacrificando seus filhos e filhas. Deus condena isso, no profeta Jeremias: “Uma coisa dessas eu nunca mandei fazer!” (Jr 7, 31).

Ainda: Deus faz chover fogo sobre Sodoma, para eliminar seu pecado. Ali não havia dez justos pedido por Abraão. Dois Apóstolos (o meigo João e Tiago) queriam, um dia, fazer descer fogo do céu sobre os samaritanos, por terem rejeitados Jesus. O Mestre os repreende: “quero misericórdia!”. “Vocês não sabem que espírito os anima”. Deus não é violento: é justo e protege seu povo.

Naquele mundo imerso na violência, o povo de Israel, também acostumado com ela, se encontra em estado de guerra ao chegar a Palestina, saindo livre do Egito. Está em jogo a sua independência nacional e também religiosa, por isso, entra em combate com os povos que o cercam. Era algo normal naquele tempo, naquela cultura: a guerra era uma atividade cotidiana. As guerras de Israel têm, portanto, segundo o costume válido, um objetivo sagrado. Deus é o “Senhor dos exércitos” celestiais, e também dos exércitos de Israel que defendem a sua independência religiosa. Dai vai nascer o Salvador de todos os homens.

Outro fato importante, é que Israel está misturado com povos pagãos, cheios de idolatria, e maus costumes, correndo o risco de adotar também os seus deuses, como aconteceu muitas vezes. Por isso, o desejo de “pureza religiosa” levou ao aniquilamento de algumas populações. Mas este tipo de conduta, pouco frequente, teve muitas vezes causas muito mais mundanas.

Israel foi mais vítima da violência que autor dela. A mudança total de perspectivas é anunciada pelas profecias de Isaías do Servo de Deus: “Meu servo justificará muitos e suportará as culpas deles” (Is 53,11).

Portanto, é preciso entender que a violência na Bíblia é a história da educação de um povo, que sai do mundo pagão, violento, para se tornar o povo de Deus, de onde virá a Salvação. Onde não está presente a violência na nossa sociedade, no nosso mundo, e também nos nossos corações? O século XX foi o século mais violento da história. E o XXI já parece ultrapassá-lo.

Se existe ódio, ele se dirige a todas as formas do mal: a rejeição de Deus, a falsidade, a injustiça, o desprezo dos outros, da sua dignidade, dos seus bens. É preciso odiar o pecado e amar o pecador. É o que o autor do salmo citado não podia entender: “Com grande ódio eu os odeio”; é o que Jesus realizou perfeitamente e que seus adversários não entenderam.

Como devemos interpretar, hoje, os inimigos do povo de Deus no Antigo Testamento? Sobretudo as forças do mal que combatem contra Deus, Seu Reino, e contra a Igreja. Não mais serão vencidos pelas forças dos cavalos, das lanças e das espadas, mas pelo poder de Deus, como Jesus ensinou no Sermão da Montanha.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Jesus não é um "fantasma", mas uma Pessoa viva!

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

No terceiro domingo de Páscoa (18/04/2021), voltamos a Jerusalém, ao Cenáculo, como que guiados pelos dois discípulos de Emaús, que tinham ouvido com grande emoção as palavras de Jesus ao longo do caminho e depois o reconheceram «ao partir o pão» (Lc 24, 35). Agora, no Cenáculo, Cristo ressuscitado apresenta-se no meio do grupo de discípulos, saudando-os: «A paz esteja convosco!» (v. 36). Mas eles, assustados e perturbados, pensaram que «viam um espírito», assim diz o Evangelho (v. 37). Então Jesus mostra-lhes as feridas do seu corpo e diz: «Vede as minhas mãos e os meus pés – as chagas – sou eu mesmo; palpai-Me e vede» (v. 39). E para os convencer, pede comida e come-a sob os seus olhares atônitos (cf. vv. 41-42).

Há aqui um detalhe nesta descrição. O Evangelho diz que os Apóstolos, «vacilando eles ainda e estando transportados de alegria», não acreditavam. Tal era a alegria que sentiam, que não podiam acreditar que o que viam era verdadeiro. E um segundo detalhe: ficaram estupefatos, surpreendidos; admirados pois o encontro com Deus leva sempre à admiração: vai além do entusiasmo, além da alegria, é outra experiência. E eles rejubilaram, mas um júbilo que os fez pensar: não, isto não pode ser verdade!... É o espanto da presença de Deus. Não vos esqueçais deste estado de espírito, que é tão bom.

Esta página do Evangelho é caracterizada por três verbos muito concretos, que num certo sentido refletem a nossa vida pessoal e comunitária: ver, tocar e comer. Três ações que podem proporcionar a alegria de um verdadeiro encontro com Jesus vivo.

Ver. «Vede as minhas mãos e os meus pés» – diz Jesus. Ver não é apenas olhar, é mais, requer também a intenção, a vontade. É por isso que é um dos verbos do amor. A mãe e o pai veem o filho, os amantes veem-se um ao outro; o bom médico vê o paciente com atenção... Ver é um primeiro passo contra a indiferença, contra a tentação de virar o rosto para o outro lado face às dificuldades e sofrimentos dos outros. Ver. Vejo ou olho para Jesus?

O segundo verbo é palpar. Convidando os discípulos a palpá-lo, a ver que ele não é um fantasma – palpai-me!  –  Jesus indica a eles e a nós que a relação com Ele e com os nossos irmãos não pode permanecer “à distância”, não existe um cristianismo à distância, não existe um cristianismo apenas ao nível do ver. O amor pede que se veja mas também a proximidade, pede contato, a partilha da vida. O Bom Samaritano não se limitou a olhar para o homem que encontrou meio morto ao longo do caminho: parou, inclinou-se, ligou as suas feridas, tocou-o, carregou-o no seu cavalo e levou-o para a estalagem. O mesmo seja feito com o próprio Jesus: amá-lo significa entrar numa comunhão de vida, uma comunhão com Ele.

E chegamos ao terceiro verbo, comer, que exprime bem a nossa humanidade na sua natural indigência, ou seja, a necessidade de nos alimentarmos para viver. Mas comer, quando o fazemos juntos, em família ou entre amigos, torna-se também uma expressão de amor, uma expressão de comunhão, de festa... Quantas vezes os Evangelhos nos mostram Jesus a viver esta dimensão de convívio! Também como Ressuscitado, com os seus discípulos. Ao ponto que o Banquete eucarístico se tornou o sinal emblemático da comunidade cristã. Comer juntos o Corpo de Cristo: este é o centro da vida cristã.

Irmãos e irmãs, esta página do Evangelho diz-nos que Jesus não é um “fantasma”, mas uma Pessoa viva; que quando Jesus se aproxima de nós enche-nos de alegria, a ponto de não acreditar, e deixa-nos estupefatos, com aquele espanto que só a presença de Deus dá, porque Jesus é uma Pessoa viva. Antes de tudo, ser cristão não é uma doutrina ou um ideal moral, é a relação viva com Ele, com o Senhor Ressuscitado: vemo-Lo, palmamo-Lo, alimentamo-nos d’Ele e, transformados pelo seu Amor, vemos, palpamos e alimentamos os outros como irmãos e irmãs. A Virgem Maria nos ajude a viver esta experiência de graça.

(PAPA FRANCISCO, REGINA CAELI, Praça São Pedro, Domingo, 18 de abril de 2021)



segunda-feira, 22 de março de 2021

Crucifixo de Salvador Dali inspirado em São João da Cruz

 



      São João da Cruz, em suas contemplações místicas, desenhou Cristo crucificado de uma forma diferente da que geralmente vemos. Ele desenhou o crucificado visto de cima. Uma visão que tiveram os anjos e o próprio Deus Pai. Um Cristo crucificado que olha sempre para a humanidade.

      Alguns anos depois, o artista plástico Salvador Dali faz uma magnífica obra de Cristo crucificado inspirando-se no desenho de São João da Cruz. Uma composição triangular, tanto pelo desenho da cruz quanto pelo desenho do corpo de Cristo. Os braços de Jesus estão em forma de arco, criando assim uma força que direciona para baixo. São três forças que impulsionam o Cristo para baixo. E abaixo da cruz encontra-se a humanidade simbolizada pelo horizonte, pelo mar, pelos barcos e pescadores. Percebemos que Cristo está pendente na cruz sem os pregos e sem a coroa de espinhos. Mas como Cristo se sustenta na cruz sem pregos? O que sustenta Jesus na cruz nunca foram os pregos e sim o grande amor pela humanidade.

     Ao contemplar o crucificado iremos sentir em nosso coração a imensidão do amor de Deus pela humanidade. Não há maior amor daquele que dá a vida pelos seus amigos!

Pedro Debarba - Teólogo











quarta-feira, 10 de março de 2021

 INTERVENÇÃO DO CARDEAL JOSEPH RATZINGER DURANTE O CONGRESSO DOS CATEQUISTAS E DOS PROFESSORES DE RELIGIÃO

10 de Dezembro de 2000

 

A nova evangelização

 
 
A vida humana não se realiza por si só. A nossa vida é uma questão aberta, um projeto incompleto que ainda deve ser terminado e realizado. A pergunta fundamental de cada homem é:  como se realiza isto tornar-se homem? Como se aprende a arte de viver? Qual é o caminho da felicidade?

Evangelizar significa:  mostrar este caminho. Jesus diz no início da sua vida pública:  Vim para evangelizar os pobres (cf. Lc 4, 18); isto significa:  eu tenho a resposta para a vossa pergunta fundamental; eu indico-vos o caminho da vida, o caminho da felicidade ou melhor:  eu sou esse caminho. A maior pobreza é a incapacidade de alegria, o tédio da vida considerada absurda e contraditória. Esta pobreza hoje está muito difundida, em formas muito diferentes, quer nas sociedades materialmente ricas quer também nos países pobres. A incapacidade de alegria supõe e causa a incapacidade de amar, inveja, avareza todos estes são vícios que devastam a vida dos indivíduos e o mundo. Eis por que precisamos de uma nova evangelização se a arte de viver permanece desconhecida, tudo o mais deixa de funcionar. Mas esta arte não é objeto da ciência esta arte só pode ser comunicada por quem tem a vida aquele que é o Evangelho em pessoa.

I. Estrutura e método na nova evangelização

1. A estrutura

Antes de falar dos conteúdos fundamentais da nova evangelização desejaria dizer uma palavra acerca da sua estrutura e método adequados. A Igreja evangeliza sempre e jamais interrompeu o caminho da evangelização. Celebra todos os dias o mistério eucarístico, administra os sacramentos, anuncia a palavra da vida a palavra de Deus, empenha-se pela justiça e pela caridade. E esta evangelização dá frutos:  produz luz e alegria, dá o caminho da vida a muitas pessoas; há quem viva, muitas vezes sem saber, da luz e do calor resplandecente desta evangelização permanente. Contudo, observamos um processo progressivo e preocupante de descristianização e de perda dos valores humanos essenciais. Uma boa parte da humanidade de hoje não encontra na evangelização permanente da Igreja o Evangelho, ou seja, uma resposta convincente à pergunta:  como viver?

Eis por que procuramos, além da evangelização permanente, jamais interrompida e que nunca se deve deter, uma nova evangelização, capaz de se fazer ouvir por aquele mundo que não encontra o acesso à evangelização "clássica". Todos têm necessidade do Evangelho; o Evangelho destina-se a todos e não apenas a um círculo determinado, e portanto somos obrigados a procurar novos caminhos para levar o Evangelho a todos.

Mas também se esconde nisto uma tentação a tentação da impaciência, a tentação de procurar imediatamente o grande sucesso, de procurar os grandes números. E este não é o método de Deus. Para o reino de Deus e a evangelização, instrumento e veículo do reino de Deus, é sempre válida a parábola do grão de mostarda (cf. Mc 31-32). O reino de Deus recomeça sempre de novo sob este sinal. Nova evangelização não pode significar:  atrair imediatamente com novos métodos mais requintados as grandes multidões que se afastaram da Igreja. Não não é esta a promessa da nova evangelização. Nova evangelização significa:  não contentar-se com o fato de que do grão de mostarda cresceu a grande árvore da Igreja universal, não pensar que é suficiente que nos seus ramos muito diferentes as aves possam encontrar lugar mas ousar de novo com a humildade do pequeno grão, deixando para Deus quando e como crescerá (cf. Mc 4, 26-29). As grandes coisas começam sempre do pequeno grão e os movimentos em massa são sempre efémeros. Na sua visão do processo da evolução, Teilhard de Chardin fala do "branco das origens" (le blanc des origines):  o início das novas espécies é invisível e a investigação científica não o pode encontrar. As fontes são escondidas muito pequenas. Por outras palavras:  as grandes realidades iniciam-se em humildade. Deixemos de lado se e até que ponto Teilhard tem razão com as suas teorias evolucionistas; a lei das origens invisíveis diz uma verdade uma verdade presente precisamente no agir de Deus na história:  "Não te elegi porque és grande, ao contrário és o mais pequeno de entre os povos; elegi-te porque te amo...", diz Deus ao povo de Israel no Antigo Testamento e exprime desta forma o paradoxo fundamental da história da salvação:  sem dúvida, Deus não conta com os grandes números; o poder exterior não é o sinal da sua presença. Grande parte das parábolas de Jesus indicam esta estrutura do agir divino e respondem desta forma às preocupações dos discípulos, os quais esperavam outro tipo de sucesso e de sinais do Messias sucessos do gênero dos que Satanás ofereceu ao Senhor:  dou-te todos os reinos do mundo tudo isto... (cf. Mt 4, 9). Sem dúvida, Paulo, no final da sua vida, teve a impressão de ter levado o Evangelho aos confins da terra, mas os cristãos eram pequenas comunidades espalhadas no mundo, insignificantes segundo os critérios seculares. Na realidade foram o germe que penetrou na massa a partir de dentro e levaram em si o futuro do mundo (cf. Mt 13, 33). Um antigo provérbio diz:  "Sucesso não é um nome de Deus". A nova evangelização deve submeter-se ao mistério do grão de mostarda e não pretender produzir imediatamente a grande árvore. Nós ou vivemos demasiado na certeza da grande árvore que já existe ou na impaciência de possuir uma árvore maior, mais vital ao contrário, devemos aceitar o mistério que a Igreja é ao mesmo tempo grande árvore e pequeníssimo grão. Na história da salvação é sempre Sexta-Feira Santa e, contemporaneamente,  Domingo  de Páscoa...

2. O método

Desta estrutura da nova evangelização deriva também o método justo. Sem dúvida, devemos usar de modo razoável os métodos modernos para nos fazer ouvir, ou melhor:  para tornar acessível e compreensível a voz do Senhor... Não procuramos escuta para nós não queremos aumentar o poder e a extensão das nossas instituições, mas desejamos servir o bem das pessoas e da humanidade dando espaço Àquele que é a Vida. Esta expropriação do próprio eu oferecendo Cristo para salvação dos homens, é a condição fundamental do verdadeiro empenho pelo evangelho. "Vim em nome de Meu Pai e não Me recebestes, mas se vier outro, em seu próprio nome, recebê-lo-eis" (Jo 5, 43). O sinal distintivo do Anticristo é falar em seu nome. O sinal do Filho é a sua comunhão com o Pai. O Filho introduz-nos na comunhão trinitária, no círculo do eterno amor, cujas pessoas são "relações puras", o acto puro do doar-se e receber-se. O desígnio trinitário visível no Filho, que não fala em seu nome mostra a forma de vida do verdadeiro evangelizador aliás, evangelizar não é simplesmente uma forma de falar, mas uma forma de viver:  viver em escuta e fazer-se voz do Pai. "Não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido", diz o Senhor acerca do Espírito Santo (cf. Jo 16, 13). Esta forma cristológica e pneumatológica da evangelização é simultaneamente uma forma eclesiológica:  o Senhor e o Espírito constroem a Igreja, comunicam-se na Igreja. O anúncio de Cristo, o anúncio do reino de Deus pressupõe escuta da sua voz na voz da Igreja. "Não falará de Si mesmo" significa:  falar na missão da Igreja...
Desta lei da expropriação derivam consequências muito práticas. Todos os métodos razoáveis e moralmente aceitáveis devem ser estudados - é um dever fazer uso destas possibilidades de comunicação. Mas as palavras e toda a arte da comunicação não podem conquistar a pessoa humana naquela profundidade, à qual deve chegar o Evangelho. Há alguns anos li a biografia de um óptimo sacerdote do nosso século, Pe. Didimo, pároco de Bassano del Grappa (Itália, n.d.r.). Nas suas notas encontram-se palavras de ouro, fruto de uma vida de oração e de meditação. A respeito de nós diz Pe. Didimo:  "Jesus pregava de dia, de noite rezava". Com esta breve notícia, ele queria dizer:  Jesus devia obter de Deus os discípulos. Isto é válido sempre. Nós não podemos ganhar os homens. Devemos obtê-los de Deus para Deus. Todos os métodos são vazios sem o fundamento da oração. A palavra do anúncio deve estar sempre imersa numa intensa vida de oração.

Devemos dar um ulterior passo. Jesus pregava de dia, de noite rezava o que não é tudo. A sua vida inteira foi como mostra de maneira admirável o evangelho de São Lucas um caminho rumo à cruz, ascensão rumo a Jerusalém. Jesus não redimiu o mundo com palavras bonitas, mas com o seu sofrimento e a sua morte. Esta sua paixão é a fonte inexaurível de vida para o mundo; a paixão dá força à sua palavra.

O próprio Senhor estendendo e ampliando a parábola do grão de mostarda formulou esta lei de fecundidade na parábola do grão que, ao cair na terra, morre (cf. Jo 12, 24). Esta lei também é válida até ao fim do mundo e é juntamente com o mistério do grão de mostarda fundamental para a nova evangelização. Toda a história o demonstra. Seria fácil demonstrar isto na história do cristianismo. Desejo recordar aqui apenas o início da evangelização na vida de São Paulo. O sucesso da sua missão não foi o resultado de uma grande arte retórica ou de prudência pastoral; a fecundidade estava relacionada com o sofrimento, com a comunhão na paixão de Cristo (cf. 1 Cor 2, 1-5; 2 Cor 5, 7; 11, 10 s; 11, 30; Gl 4, 12-14). "Nenhum sinal será dado a não ser o sinal do profeta Jonas", disse o Senhor. O sinal de Jonas é Cristo crucificado são as testemunhas, que completam o "que falta aos sofrimentos de Cristo" (Cl 1, 24). Em todos os períodos da história verificou-se sempre de novo as palavras de Tertuliano:  o sangue dos mártires é semente.
Santo Agostinho diz o mesmo de uma maneira muito bonita, ao interpretar Jo 21, onde a profecia do martírio de Pedro e o mandato de apascentar, ou seja, a instituição da sua primazia, estão intimamente relacionados. Santo Agostinho comenta o texto de Jo 21, 16 da seguinte forma:  "Apascenta as minhas ovelhas", o que significa, sofre pelas minhas ovelhas (Sermo Guelf. 32; PLS 2, 640). Uma mãe não pode dar luz a uma criança sem sofrer. Qualquer parto requer sofrimento, é dor, e tornar-se cristão é um parto. Digamo-lo mais uma vez com palavras do Senhor:  o reino de Deus exige violência (cf. Mt 11, 12; Lc 16, 16), mas a violência de Deus é o sofrimento, é a cruz. Não podemos dar a vida a outros, sem dar a nossa vida. O processo de expropriação acima mencionado é a forma concreta (expressa de muitas formas diferentes) de doar a própria vida. E pensamos na palavra do Salvador:  "...quem perder a sua vida por Mim e pelo Evangelho, salvá-la-á..." (Mc 8, 36).

II. Os conteúdos essenciais da nova evangelização

1. Conversão

No que se refere aos conteúdos da nova evangelização deve-se ter presente em primeiro lugar a inseparabilidade do Antigo e do Novo Testamento. O conteúdo fundamental do Antigo Testamento está resumido na mensagem de João Batista:  Convertei-vos! Não se acede a Jesus sem o Batista; não existe possibilidade de chegar a Jesus sem responder ao apelo do precursor; aliás:  Jesus assumiu a mensagem de João na síntese da sua própria pregação:  convertei-vos e acreditai no Evangelho (cf. Mc 1, 15). A palavra grega converter-se significa:  reconsiderar pôr em questão o próprio modo de viver e o comum; deixar entrar Deus nos critérios da própria vida; não julgar simplesmente de acordo com as opiniões correntes. Converter-se significa por conseguinte:  não viver como vivem todos, não fazer como fazem todos, não sentir-se justificados em ações duvidosas, ambíguas, perversas simplesmente porque há quem o faça; começar a ver a própria vida com os olhos de Deus, portanto procurar o bem, mesmo se não é agradável; não apostar no juízo da maioria, mas no juízo de Deus por outras palavras:  procurar um novo estilo de vida, uma vida nova. Tudo isto não implica um moralismo; a limitação do cristianismo à moralidade perde de vista a essência da mensagem de Cristo:  o dom de uma nova amizade, o dom da comunhão com Jesus e por conseguinte com Deus. Quem se converte a Cristo não pretende criar uma autonomia moral própria, não pretende construir com as próprias forças a sua bondade. "Conversão" (Metanoia) significa precisamente o contrário:  abandonar a auto suficiência, descobrir e aceitar a própria indigência indigência dos outros e do Outro, do seu perdão, da sua amizade. A vida não convertida é auto justificação (não sou pior do que os outros); a conversão é a humildade de se confiar ao amor do Outro, amor que se torna medida e critério da minha própria vida.

Devemos ter também presente o aspecto social da conversão. Sem dúvida, a conversão é em primeiro lugar um ato pessoalíssimo, é personalização. Eu separo-me da fórmula "viver como todos" (já não me sinto justificado pelo facto de que todos fazem o que eu faço) e encontro perante Deus o meu próprio eu, a minha responsabilidade pessoal. Mas a verdadeira personalidade também é sempre uma nova e mais profunda socialização. O eu abre-se de novo ao tu, em toda a sua profundidade, e desta forma nasce um novo Nós. Se o estilo de vida difundido no mundo implica o perigo da despersonalização, do viver não a minha vida mas a vida dos outros, na conversão deve realizar-se um novo Nós do caminho comum com Deus. Ao anunciar a conversão também devemos oferecer uma comunidade de vida, um espaço comum do novo estilo de vida. Não se pode evangelizar só com palavras; o evangelho cria vida, cria comunidade de caminho; uma conversão meramente individual não tem consistência...

2. O Reino de Deus

Na chamada à conversão está implícito como sua condição fundamental o anúncio do Deus vivo. O teocentrismo é fundamental na mensagem de Jesus e também deve ser o centro da nova evangelização. A palavra-chave do anúncio de Jesus é:  Reino de Deus. Mas Reino de Deus não é uma coisa, uma estrutura social ou política, uma utopia. O Reino de Deus é Deus. Reino de Deus significa:  Deus existe. Deus vive. Deus está presente e age no mundo, na nossa na minha vida. Deus não é uma remota "causa última", Deus não é o "grande arquiteto" do deísmo, que construiu a máquina do mundo e agora se encontra fora. Ao contrário:  Deus é a realidade mais presente e decisiva em qualquer ato da minha vida, em todos os momentos da história. Na sua conferência de despedida da cátedra na universidade de Monastério, o teólogo J. B. Metz disse coisas que dele não se esperavam. No passado, Metz ensinou-nos o antropocentrismo o verdadeiro acontecimento do cristianismo teria sido a viragem antropológica, a secularização, a descoberta do secularismo no mundo. Depois, ensinou-nos a teologia política o carácter político da fé; depois a "memória perigosa"; finalmente a teologia narrativa. Depois deste caminho longo e difícil hoje dizemos:  o verdadeiro problema do nosso tempo é a "crise de Deus", a ausência de Deus, camuflada por uma religiosidade vazia. A teologia deve voltar a ser realmente teologia, um falar de Deus e com Deus. Metz tem razão:  para o homem, o "unum necessarium" é Deus. Tudo muda se Deus está ou não está presente. Infelizmente também nós cristãos vivemos muitas vezes como se Deus não existisse ("si Deus non daretur"). Vivemos segundo o slogan:  Deus não está presente, e se está, não tem incidência. Por isso a evangelização deve, antes de mais, falar de Deus, anunciar o único Deus verdadeiro:  o Criador o Santificador o Juiz (cf. Catecismo da Igreja Católica).
Também neste ponto se deve ter presente o aspecto prático. Deus não se pode dar a conhecer unicamente com as palavras. Não se conhece uma pessoa, se não sabemos diretamente nada dela. Anunciar Deus é introduzir na relação com Deus:  ensinar a rezar. A oração é fé em ato. E só na experiência da vida com Deus se manifesta também a evidência da sua existência. Eis por que são tão importantes as escolas de oração, de comunidade de oração. Existe complementariedade entre oração pessoal ("no próprio quarto", sozinhos perante os olhos de Deus), oração comum "paralitúrgica" ("religiosidade popular") e oração litúrgica. Sim, a liturgia é, em primeiro lugar, oração; a sua especificidade consiste no fato que o seu sujeito primário não somos nós (como na oração privada e na religiosidade popular), mas o próprio Deus, a liturgia é actio divina, Deus age e nós respondemos à ação divina.

Falar de Deus e falar com Deus são duas ações que devem andar sempre juntas. O anúncio de Deus orienta para a comunhão com Deus na comunhão fraterna, fundada e vivificada por Cristo. Portanto a liturgia (os sacramentos) não é um tema paralelo à pregação do Deus vivo, mas a concretização da nossa relação com Deus. Neste contexto, seja-me permitida uma observação geral sobre a questão litúrgica. O nosso modo de celebrar a liturgia com frequência é demasiado racional. A liturgia torna-se ensinamento, cujo critério é:  fazer-se compreender a consequência é com frequência a banalização do mistério, o prevalecer das nossas palavras, a repetição das fraseologias que parecem mais acessíveis e mais agradáveis ao povo. Mas isto é um erro não só teológico, mas também psicológico e pastoral. A onda do esoterismo, a difusão de técnicas asiáticas de distensão e auto esvaziamento mostram que nas nossas liturgias falta algo.

Precisamente no nosso mundo de hoje precisamos do silêncio, do mistério supra individual, da beleza. A liturgia não é invenção do sacerdote celebrante ou de um grupo de especialistas; a liturgia (o "rito") cresceu num processo orgânico ao longo dos séculos, leva em si o fruto da experiência de fé de todas as gerações. Mesmo se os participantes talvez não entendam todas as palavras, compreendem o significado profundo, a presença do mistério, que transcende todas as palavras. O celebrante não é o centro da ação litúrgica; o celebrante não está em frente do povo em seu nome não fala se si nem para si, mas "in persona Christi". Não contam as capacidades pessoais do celebrante, mas unicamente a sua fé, na qual se Cristo se torna transparente. "Ele deve crescer e eu diminuir" (Jo 3, 30).

3. Jesus Cristo

Com esta reflexão o tema Deus já se alargou e concretizou no tema Jesus Cristo:  só em Cristo e através de Cristo o tema Deus se torna realmente concreto:  Cristo é Emanuel, o Deus conosco a concretização do "Eu sou", a resposta ao Deísmo. Hoje é grande a tentação de reduzir Jesus Cristo, o único filho de Deus a um Jesus histórico, a um homem puro. Não se nega necessariamente a divindade de Jesus, mas com certos métodos destila-se da Bíblia um Jesus à nossa medida, um Jesus possível e compreensível dentro dos parâmetros da nossa historiografia. Mas este "Jesus histórico" não é "natural", a imagem dos seus autores e não a imagem do Deus vivo (cf. 2 Cor 4, 4 s.; Cl 1, 15). O Cristo da fé não é um mito; o chamado Jesus histórico é uma figura mitológica, auto inventada pelos diferentes intérpretes. Os duzentos anos de história de "Jesus histórico" refletem fielmente a história das filosofias e das ideologias deste período.

No âmbito desta conferência, não posso tratar os conteúdos do anúncio do Salvador. Desejaria brevemente mencionar dois aspectos importantes. O primeiro é o seguimento de Cristo Cristo oferece-se como caminho para a minha vida. Seguimento de Cristo não significa:  imitar o homem Jesus. Uma tentativa como esta falha necessariamente seria um anacronismo. O seguimento de Cristo tem uma meta mais alta:  assimilar-se a Cristo, isto é, alcançar a união com Deus. Estas palavras talvez soem mal aos ouvidos do homem moderno. Mas na realidade todos temos sede do infinito:  de uma liberdade infinita, de uma felicidade sem limites. Toda a história das revoluções dos últimos dois séculos só se explica desta forma. A droga explica-se assim. O homem não se contenta com soluções abaixo do nível da divinização. Mas todos os caminhos oferecidos pela "serpente" (Gn 3, 5), que significa pela sabedoria mundana, falham. O único caminho é a comunhão com Cristo, realizável na vida sacramental. Seguimento de Cristo não é um assunto de moral, mas um tema "místico" um conjunto de ação divina e de resposta da nossa parte.
Desta forma encontramos presente no tema seguimento o outro centro da cristologia, que desejaria mencionar:  o mistério pascal a cruz e a ressurreição. Nas reconstruções do "Jesus histórico" normalmente o tema da cruz não tem significado. Numa interpretação "burguesa" torna-se um acidente em si evitável, sem valor teológico; numa interpretação revolucionária torna-se a morte heroica de um rebelde. Mas a verdade é outra. A cruz pertence ao mistério divino é expressão do seu amor até ao fim (cf. Jo 13, 1). O seguimento de Cristo é participação da sua cruz, unir-se ao seu amor, à transformação da nossa vida, que se torna nascimento do homem novo, criado à imagem de Deus (cf. Ef 4, 24). Quem omite a cruz, omite a essência do cristianismo (cf. 1 Cor 2, 2).

4. A vida eterna

Um último elemento central de qualquer evangelização autêntica é a vida eterna. Hoje devemos anunciar a fé com renovado vigor na vida quotidiana. A este ponto, desejaria mencionar apenas um aspecto da pregação de Jesus que hoje, muitas vezes, é negligenciado:  o anúncio do Reino de Deus é o anúncio do Deus presente, do Deus que nos conhece, nos ouve; do Deus que entra na história, para fazer justiça. Portanto, esta pregação é também anúncio do juízo, anúncio da nossa responsabilidade. O homem não pode fazer ou deixar de fazer o que lhe apetece. Ele será julgado. Deve prestar contas. Esta certeza é válida tanto para os poderosos como para os simples. Onde ela é honrada, são delineados os limites de qualquer poder deste mundo. Deus faz justiça, e só ele o pode fazer por último. Nós consegui-lo-emos tanto mais, quanto mais formos capazes de viver sob o olhar de Deus e de comunicar ao mundo a verdade do juízo. Desta forma, o artigo de fé do juízo, a sua força de formação das consciências, é um conteúdo central do Evangelho e é deveras uma Boa Nova. E também o é para todos os que sofrem sob a injustiça do mundo e procuram a justiça. Compreende-se desta forma o nexo entre o Reino de Deus e os "pobres", os que sofrem e todos aqueles dos quais falam as bem-aventuranças do sermão da montanha. Eles são protegidos pela certeza do juízo, pela certeza que existe a justiça. Eis o verdadeiro conteúdo do artigo sobre o juízo, sobre Deus-juiz:  há justiça. As injustiças do mundo não são a última palavra da história. Existe uma justiça. Só quem não quer que haja justiça, se pode opor a esta verdade. Se tomarmos a sério o juízo e a seriedade da responsabilidade que disso nos advém, compreendemos bem o outro aspecto deste anúncio, isto é, a redenção, o facto de que na cruz Jesus assume os nossos pecados; que o próprio Deus na paixão do Filho se torna advogado de nós, pecadores, e desta forma torna possível a penitência, a esperança para o pecador arrependido, esperança expressa maravilhosamente nas palavras de São João:  diante de Deus, tranquilizaremos o nosso coração, independentemente do que eles nos reprova. "Deus é maior que os nossos corações e conhece todas as coisas" (1 Jo 3, 20). A bondade de Deus é infinita, mas não devemos reduzir esta bondade a uma pieguice afetada sem verdade. Só acreditando no justo juízo de Deus, só tendo fome e sede de justiça (cf. Mt 5, 6) é que abrimos o nosso coração, a nossa vida à misericórdia divina. Vê-se:  não é verdade que a fé na vida eterna torna insignificante a vida terrena. Pelo contrário:  só se a medida da nossa vida for a eternidade, também a vida na terra é grande e o seu valor é imenso. Deus não é o concorrente da nossa vida, mas a garantia da nossa grandeza. Desta forma voltamos ao ponto de partida:  Deus. Se considerarmos bem a mensagem cristã, não falamos de muitas coisas. Na realidade, a mensagem cristã é muito simples. Falamos de Deus e do homem e, desta forma, dizemos tudo.